Doc day 4. Ser Das Ilhas
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| Fotograma de É Na Terra, Não É Na Lua |
O Corvo foi a última ilha dos açores que conheci e, no entanto, tem todas as letras no meu sobrenome. Ser das ilhas está-me no código genético, coisa a que não se escapa, e mesmo sem ter nascido lá é como se soubesse o atlântico de cor. Quando nas ilhas, sou capaz de estar horas infinitas a olhar o movimento da mar ou virar-lhe costas e ver mudar a forma das nuvens desenhada no verde eléctrico da paisagem. Lagoas. Vegetação. Melancolia ruidosa à mercê dos elementos e uma natureza em bruto, a fazer-se nos homens também. As ilhas são território particular, onde o mar é fronteira e o consolo é a ilha em frente. Os açoreanos, seres peculiares, diferentes, de saber telúrico, sotaque cantado e ideias feitas.
De todo este resumo é feita a minha impressão d'ilha, o reconhecimento que me está na pele e é por isso que não deixo de olhar com um sorriso para a visão naif do Gonçalo Tocha. Com fotografia e montagem irrepreensíveis, o filme tem três horas de cadência certa e é bem-humorado e bonito, porque dedicado às gentes do Corvo em jeito de memória e testemunho. E até merece o tempo que ali estivémos, satisfeitos, a espreitar aquelas vidas. Mas é muito leve e a poesia não chega quando oscilamos demais entre a perdição com a paisagem que nos entra pelos olhos dentro e uma intrusão pequena, que merecia ter sido muito maior. Talvez os corvinos não tivessem permitido, mas acho que o problema é que o filme não conseguiu mostrar que ser da ilha é não ser de mais lado nenhum.

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