Da Urbe

Por detrás de todo o pensamento e intervenção urbana escondem-se conceitos, noções impossíveis de ignorar e vive a manifestação física da utopia dos espaços: cidadania insurgente, apropriação, o direito à cidade... De que modo conseguimos a verdadeira democracia participativa? Não deveria ser a urbe espaço por excelência desse exercício de poder ‘popular’? Onde começa e acaba a fronteira entre o público e o privado no território? De que forma é possível instituir mecanismos de governação que devolvam aos cidadãos a possibilidade de intervir no espaço onde vivem, de o transformar, de o tornar seu?
Vem isto a propósito da escola de verão, das minhas mini-férias no sotavento algarvio, da lembrança do ‘Operações SAAL’, esse magnífico documentário-retrato da acção interventiva em pleno pós- PREC que vi há talvez uns dois anos.

Concebido como uma experiência de forte intervenção popular no planeamento e execução de projectos de habitação social, o Serviço Ambulatório de Apoio Local baseou-se num modelo que envolvia a população (organizada em associações e comissões de moradores) e equipas de especialistas (arquitectos, engenheiros, geógrafos, sociólogos…) que em conjunto discutiam, planeavam e executavam -com financiamento estatal- a construção de bairros, em substituição de habitações precárias, dando força ao conceito de habitação decente e ao direito reivindicado a melhores condições de vida.

Com diferentes expressões e profundidade interventiva de Norte a Sul do país, esta foi uma manifestação única de um período sem igual de vontade colectiva, que deixou marca e que faz hoje parte da malha e do edificado de algumas das cidades e vilas portuguesas.

Um passeio pela mistura de tempos urbanos que é a vila de Montegordo, deixa ver isso mesmo. Perco-me nas ruas, fotografo, interesso-me um pouco mais pelos sinais e percebo como foi este -à semelhança de muitos dos restantes- um projecto institucionalmente abandonado, necessitado de uma segunda ocupação de moradores nos idos de 81, para poder ver terminada a sua construção. 20 anos depois -em 2001- são assinadas escrituras e compradas as casas pelos próprios.

Hoje, aquele SAAL é certamente um bairro sem sonho mas um bairro que fez história e emergiu dela com direito a placa. Uma pequena vila dentro de outra vila, com passado piscatório e presente turístico. Algumas casas estão pintadas de amarelo, conscientes do seu papel na modernidade do renting estival, e há gatos e cães domésticos que por ali passeiam, plenos do seu território.

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