15 Propriedades
Uma das primeiras coisas que se aprende nas aulas de desenho é que um objecto nada é sem as suas fronteiras e o que está para além dele. A luz reforça-se criando a sombra. A forma define-se tornando denso o fundo. Cada coisa é uma coisa e o seu contrário, o seu contraste. E sem isto, o objecto, a coisa, é bidimensional, sem vida. É um quase-morto.
Ocorrem-me estas coisas a propósito das últimas leituras para o doutoramento. É-nos pedido um ensaio sobre uma tese que cada autor tem vindo a apresentar desde o início do semestre. Escolho a última, sobre ordem implícita e crescimento orgânico das cidades. Todo o tema me fascina porque é uma busca de padrões de auto organização e pretende devolver ao urbanismo uma lição preciosa: o planeamento das cidades é tanto mais efectivo e adaptado quanto mais considerar uma visão de totalidade e tiver em conta que há padrões e propriedades orgânicas adaptativas (para além da ordem euclideana aparente que o nosso olhar tem captado) que alimentam os sistemas urbanos, conferindo-lhes vida.
Uma rua recortada é mais convidativa que uma rua rectilínea: cria contrastes, luz e sombra; recantos onde é possível estar. No inverno ilumina-se de uma forma, no verão de outra. Permite-nos alternar a circulação, escondermo-nos. Uma construção, qualquer que seja, será tanto mais equilibrada e 'orgânica' quanto mais 'centros' tiver e maior adaptação ao contexto (natural, espacial) for capaz, fazendo uso de um conjunto restrito de 'leis naturais'.
Sorrio, porque sempre achei que a nossa percepção subconsciente e intuição sobre as coisas tem claramente uma fundamentação matemática relacionada com 'regularidades' que podem existir sem se verem, e esta visão aproxima-me dessa verdade, quase permitindo à ciência escrever poesia.
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