Quanto Vale Uma Canção


Se fizer um exercício de memória, acho que a minha relação de amor com a música foi tardia, quão tardios podem ser os 17 ou 18 anos, para começar a descoberta e ouvir compulsivamente canções, repeti-las em loop, sabê-las de cor....quer dizer, aos 11, 12 anos já sabia de cor o Reckless do Bryan Adams ou as canções dos Beatles e do Zeca Afonso e já tinha alguns concertos do Fausto e do(s) Trovante na memória (sim, é verdade). Mas digo-o sempre sem vergonha e essa não seria (muito longe disso) a minha linha musical futura. Nessa altura estava mais interessada em ler, escrever, e a música estava lá mas não ocupava o tempo nem havia preferência.

Com a pós-adolescência tudo mudou. Desde namorados e amigos melómanos que tocavam em bandas, das trocas de cassetes, da MTV, até àquele programa de rádio feito no palanque que montámos no bar do ISEG, passando pelas horas de CDs na Valentim de Carvalho ou das defuntas Pandora e blip.fm que tanto me deram a conhecer, tudo faz parte da minha memória da música, tudo isso ajudou a construí-la em décadas de encontro. Descobri o jazz, o início do blues, o folk, Schumann, Mendelssohn, Mozart, os anos 70, os 80, vivi os 90 e o amor ao trip hop e ao grunge. Entrei no século XXI e a viagem continuou.

E bem sabemos - eu bem sei - que uma melodia pode dar em poema, um bom ritmo empurrar o corpo para a alegria ou o transe, uma letra fazer-nos chorar ou encher-nos de contentamento. Uma canção pode ser o melhor dos instrumentos democráticos, unir esquerda e direita, cépticos e utópicos, e assistir a um concerto pode ser uma experiência de partilha quase religiosa com desconhecidos. Mas o melhor de tudo é que há canções que nos definem, falam de nós e por nós. Ouvi-las e partilhá-las é ouvirmo-nos, dizermo-nos aos outros e é também sentir, crescer e envelhecer e continuar a descoberta. E é por isso que a música é tão importante e tanto importa.

  


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