Point Break
Sentamo-nos a pensar como escrever num tempo assim. E o mundo vem-nos como uma tela em branco. Do começo, no começo. Será possível escrever sobre isto? Como é possível escrever sobre outra coisa que não isto? E os olhos esforçam-se mas só vêem a folha em branco e aqueles minutos em que pusemos os pés no passeio no lado onde havia sol, como se fosse o nosso último acto de insurgência. Dez minutos na rua e queremos já correr, fugir do vizinho, da probabilidade, procurar refúgio para não magoar ninguém, acharmo-nos sozinhos. Separados e desinfectados. E se ele está em mim? ‘Cada distância tem o seu silêncio’. Como imaginar uma coisa assim? Devolvidos à nossa humanidade, quando é ele que tem de nos lembrar que não somos nem necessários nem suficientes, mas orgânicos, da natureza e parte dela? Tão frágeis na existência, vulneráveis à onda silenciosa que às vezes parece ser só mentira, uma distopia inventada, uma brincadeira de mau gosto para acabar com a nossa construção social. Sentamo-nos no sofá, a televisão sem som e o sol lá fora, os pássaros lá fora, as flores que renascem a cada Primavera, o wifi que está fraco e as árvores que rebentam nos seus ramos. A primeira fruta da estação, a primeira chuva da estação, o primeiro cheiro da estação e nós, lentamente mergulhados numa ansiedade que não passa. Os números, a curva, os mortos. Ziguezagueamos por Abril em contenção, ziguezagueamos pela casa, certos de que precisamos uns dos outros, que é por causa de precisarmos uns dos outros que a onda avança. Sermos a causa e a cura em simultâneo. Quem diria? ‘Cada distância tem o seu silêncio’. Dizem-nos que é preciso reinventar o tempo, reinventar a vida de forma temporária, confinados que estamos no espaço burguês. Lemos os jornais e os livros esquecidos à espera do Verão, arrumamos os armários, ensinamos os filhos e enlouquecemos com eles, passeamos o cão, o gato, tomamos café na varanda ao sol num acto de resistência, e entregamo-nos à espera, na busca da melhor playlist a acompanhar. Como éramos antes disto? Como vão ficar todos depois disto? O desempregado a passar fome, a mulher que tinha medo do marido, o homem que não tinha casa, o repositor de prateleiras, a médica, o enfermeiro, o varredor de rua? Nós neles e eles em nós. Como será de novo o toque, o beijo? Como será abraçar de novo a mãe, o pai, a avó, como será abraçar a liberdade? ‘Cada distância tem o seu silêncio’. Deitamo-nos e os sonhos parecem mais vívidos, tudo passeia na noite e os sonhos não páram. E se volta? E se quando acabar ainda mal começou? E a onda desloca-se, indiferente, e nós continuamos a afastar-nos para enfraquecer a onda. Às vezes, os tsunamis não têm água. Os dias sucedem-se, vestimo-nos, teletrabalhamos, o whatsapp, as mensagens, inventamos sucedâneos de normalidade e sucede-se a engorda e o take away. Transpiramos no supermercado a lembrar-nos onde não podemos tocar e recebemos mais emails para encomendas online. A economia não pode parar. Levantamo-nos para o treino de ginástica no youtube, o tutorial online, a aula de yoga, a máscara hidratante, nunca tratámos tão bem de nós nem falámos tanto connosco próprios, mas foi preciso ser ele a forçar-nos. Que ironia. ‘Cada distância tem o seu silêncio’. Abril continua e vamos fazendo listas em cima da incerteza. Irmos para fora cá dentro, o jantar no restaurante se ainda existir, comprar aquele vestido se tivermos dinheiro, os concertos em 2021 se já pudermos, as festas que se tornarão clandestinas quando já não aguentarmos mais. E ele, que só pára de rir em cima dos nossos planos quando inventarmos a vacina, e ele a lembrar-nos que éramos todos a solidão por acontecer, e ele a lembrar-nos que precisamos uns dos outros, sem sermos nem mais nem menos do que os outros são. Acordaremos finalmente, talvez já fora da emergência e saltámos uma estação, o sol já queima, o CO2 diminuiu, os patos passeiam-se agora soltos na Avenida e saber-nos-emos resistentes, heróis de nós próprios, certos de estarmos diferentes, de que tudo mudou, de que o nosso novo normal é a certeza de que pouco será igual daqui para a frente.
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