Hopper





O meu amor a Hopper é muito antigo e interior e anterior. Vem muito de trás da pandemia e não sei bem em que se funda, ou talvez saiba demasiadamente bem, tão bem quanto podemos saber o que nos diz a luz ou a melancolia daquele voyeurismo cinemático e contemplativo, aquela solidão reflexiva.
Repare-se. Se olharmos uns minutos percebemos que há pormenores constantes que se destacam: uma luminosidade difusa a remeter-nos para um limbo temporal (será sempre manhã ou sempre fim de tarde? estamos a falar do nascer ou do pôr do sol?), sombras cuidadosamente colocadas e alinhadas com as muitas linhas rectas (permanentes geometrias, urbanas e anómicas), o mesmo olhar posto no infinito, enquadrado em divisões e compartimentos protectores, e janelas, muitas janelas indiscretas e abertas ao observador e ao observado. Ninguém como Hopper consegue isto com estes elementos, esta sensação de tempo congelado. Frames para lá do bulício ou movimento, pequenos mundos com homens e mulheres alienados, a olhar de dentro para fora.

Comentários

Mensagens populares